Críticas feministas e Sra. Midas

‘Sra. Midas’ é uma versão revisionista da história do rei Midas contada da perspectiva feminina: tradicionalmente, este antigo mito grego era sobre um homem que podia transformar tudo em ouro com um toque. Este poema explora a tristeza que a Sra. Midas sente por não poder sentir o toque de seu marido — chamando a atenção para a angústia, o aborrecimento e a repugnância que ela nutre por ele em relação à sua ganância. Este poema é especialmente interessante para as críticas feministas, pois é possível que Midas seja uma pessoa de vontade forte que não deixa seu cônjuge arruinar sua vida, pois ela foge e vive sem ele. No entanto, há outra leitura, que afirma que seu marido controla suas emoções e que tudo o que ela deseja é um marido amoroso, bastante tradicional.

Desde o início, a voz priorizada por Duffy é a da Sra. Midas, que reconta a história esperada a partir de seu ponto de vista. Esta tática interessaria as críticas feministas, pois na literatura as mulheres às vezes não têm voz ou só são ouvidas atrás dos homens mais próximos; no entanto, é claro que a Sra. Midas tem controle e está contando sua história com um grau de autonomia. Através de seu humor e metáforas, somos capazes de entender a ruptura de seu casamento, assim como a idéia de que ‘a riqueza não é tudo’ de uma maneira diferente da maneira como a história habitual do rei Midas transmite esta idéia. Pode-se ver que a Sra. Midas está desafiando a demanda da sociedade por ‘comportamento feminino’, como diria Simone de Beauvoir, pois ela ‘derramou um copo de vinho’. Esta ação mostra falta de interesse na idéia de que as mulheres não são destinadas a serem bebedoras. A maneira como o poema é apresentado tão casualmente — ‘Foi no final de setembro’. Eu tinha acabado de derramar um copo de vinho…’ — dá ao poema um ar de mistério. No entanto, quando percebemos que ela nos fala de um momento difícil em sua vida, a casualidade parece ser uma força, pois normalmente se pode supor que um divórcio ou separação é sempre um tema difícil de ser abordado. Embora aterrorizada por seu marido, ela rapidamente esconde seu gato, dando-lhe um ar de heroísmo e fazendo-a parecer engraçada: este humor permite ao leitor perceber que a Sra. Midas é uma mulher intelectual.

Os críticos feministas podem encontrar o humor e a personalidade relaxada da Sra. Midas para refletir um tratamento típico mas injusto das mulheres na história e na literatura: há grandes personalidades entre as mulheres, mas estas personalidades raramente são mencionadas tanto em fatos históricos quanto em lendas históricas. Esta característica da Sra. Midas pode ser entendida como Duffy tentando destacar esta desigualdade. A Sra. Midas estava tão apaixonada por seu marido em tempos, mas agora está aterrorizada que um beijo transformaria seus lábios em uma ‘obra de arte’. Por outro lado, as críticas feministas podem abrir outros significados por trás da ‘Sra. Midas’ interpretando o uso de papéis de gênero por Duffy como mostrando o quanto uma mulher pode sofrer por causa de seu marido, especialmente se ela ainda o deseja — sugerindo como em nossa sociedade muitas vezes se acredita que uma mulher é mais feliz com um homem dominante. Somos apresentados pela primeira vez ao Sr. Midas quando ele está ‘estalando galho’: o estalar tem um tom violento e talvez sugira que a relação é bastante patriarcal. Embora as mulheres possam ter uma voz, ela ainda é mais fraca do que a voz dos homens nesta configuração. O marido da Sra. Midas, que é ganancioso por dinheiro e está machucando emocionalmente, ainda recebe a esposa estereotipada que ‘serviu a refeição’ e ‘derramou com um aperto de mão’ (pois mesmo com medo dele ela ainda faz tudo por ele).

Outro aspecto do poema no qual as críticas feministas estariam muito interessadas seria o fato de que a Sra. Midas acredita que seu cônjuge tem ‘falta de pensamento’ para ela e é ‘pura [lí] egoísta’, mas sonha em ‘gerar seu filho’. Poderia ser proposto que a Sra. Midas é um símbolo de muitas mulheres que não são tratadas gentilmente por seus cônjuges, mas ainda desejam ter um filho, pois fazer isso é o que a sociedade nos fez pensar que ‘felicidade’ e um ‘bom relacionamento’ envolvem. Duffy fez o Sr. Midas quase parecer vilão ao apresentar o sonho da Sra. Midas de ter um filho. Querer um filho é algo que um casal geralmente concorda de maneira respeitosa, e assim, quando a Sra. Midas explica que eles eram ‘apaixonados então’, pode-se pensar que o Sr. Midas teria conhecido deste sonho. No entanto, ele deixou sua ganância por dinheiro vir antes do desejo de seu amante. Mas há um outro lado neste estado de conflito: embora o Sr. Midas tenha quebrado seu sonho, a Sra. Midas ainda o controla mesmo quando ela tenta expulsá-lo.

Pode-se argumentar que ‘Sra. Midas’ é um poema feminista que está tentando destacar a desigualdade que as mulheres na literatura, e na vida real, enfrentam. Duffy cria uma esposa estereotipada que cozinha e limpa, mas subverte esta personalidade sugerindo que a Sra. Midas é uma mulher forte de vontade e intelectual. Usando a ‘Sra. Midas’, Duffy chama a atenção para discrepâncias que, em última análise, podem ser feitas para se curvar diante da força do caráter.